Una voz de las regiones



Local é berço do Rio São Francisco e está repleto de lendas e tradições ancestrais, além de belas paisagens  

 PELAS TRILHAS DA SERRA DA CANASTRA

Por Eduardo Waack 

            Esta é a primeira de uma série de matérias abordando possíveis (e econômicos) roteiros de viagens pelas terras do estado brasileiro de Minas Gerais, sem deixar de lado um pedaço do Rio de Janeiro e São Paulo. História, culinária, arquitetura, costumes e natureza exuberante. Hoje percorreremos as altas trilhas da Serra da Canastra, conhecendo a nascente do Rio São Francisco, místico local onde o vento forte açoita e marca o rosto, os fantasmas gritam e ainda é possível avistar, com certa facilidade, animais silvestres ameaçados de extinção. O Parque Nacional da Serra da Canastra localiza-se a 400 quilômetros de Matão (interior paulista) onde residimos, e chegar lá seria nosso primeiro desafio. Como em toda viagem familiar, acordamos bem cedo e às 5h00 já estávamos na estrada, o automóvel carregado de sonhos, bagagens e comida. Passamos por Ribeirão Preto (lembrando o escritor José Luiz Dutra de Toledo, de saudosa memória), paramos em Brodowski para visitar a casa, hoje museu, onde passou boa parte da vida o pintor Cândido Portinari (1903-1962), residência de seus avós, que guarda algumas de suas obras, além de móveis, uma adorável capela e outros objetos relacionados ao pintor. Ali almoçamos.

Serra da Canastra

            Novamente na estrada, a chegada ao estado de Minas Gerais faz-se notar primeiro pela qualidade do asfalto, que muda sensivelmente. MG 050: São Sebastião do Paraíso, Passos, Capitólio, Piumhí. Entramos em Piumhí e então partimos, à esquerda, para São Roque de Minas, distante 62 quilômetros em estrada de terra, cidadezinha próxima à nascente do Rio São Francisco. O atual município de São Roque de Minas (antigamente chamado Guia Lopes) faz parte da região onde, segundo o historiador Diogo de Vasconcelos, anteriormente habitavam os índios Cataguazes, que em 1675 foram dizimados pelo bandeirante Lourenço Castanho. Depois, chegaram os negros escravos fugidos das fazendas das redondezas, ali formando célebres quilombos, que sobreviviam da agricultura, da pesca e da caça, buscando preservar seu modo de vida original, e durante longos anos resistiram ao domínio opressivo dos brancos. Derrotados os negros, em 1758, a região passou a ser povoada por mestiços e brancos provindos dos centros de mineração das vizinhanças, que entraram em decadência.


            Atualmente este município, situado a 325 quilômetros de Belo Horizonte (e a 550 Km da capital paulista), cuja economia está baseada na agropecuária e no turismo ecológico, possui 6.187 habitantes, sendo que em sua sede moram 2.846 pessoas. Em São Roque de Minas a paisagem é maravilhosa. Somos cercados por montanhas e pela majestosa Serra da Canastra, que recebe este nome por se parecer com uma canastra, ou baú. Ali, bem próximo, a apenas sete quilômetros, encontra-se a Portaria São Roque do Parque Nacional da Serra da Canastra (Portaria 1). O parque nacional foi criado em 1972, para preservar este importante berço das águas e possui uma área de 71.525 ha, mas as terras que o circundam formando uma área de aproximados 200.000 hectares, também recebem proteção especial. A Serra da Canastra é divisora de águas das bacias do Paraná e do São Francisco, este, considerado o rio de integração nacional e que percorre mais de 3.000 quilômetros atravessando vários estados brasileiros, sendo maltratado, agredido, assoreado e ameaçado por pessoas, empresas, políticos, sociedade em geral e por projetos de transposição de seus recursos hídricos e desfiguração de seu leito, até desaguar, magoado, em Alagoas nas águas quentes do Oceano Atlântico.

Cachoeira Casca d'Anta


            Pagamos R$ 3,00 por pessoa e adentramos o parque. Seus habitantes mais ilustres, animais como o lobo guará, o tamanduá bandeira, o tatu canastra e o tatu bola, o veado campeiro, o urubu-rei, a onça-parda, a jaguatirica, o pato-mergulhão, o gato-maracajá, o macaco-prego, o guaxinim e muitos outros, podem ser avistados com certa facilidade, e nós mesmos avistamos quatis, ariranhas, falcões, bandos de emas, siriemas e inúmeros pássaros, além de várias e tranquilas cobras. O local está povoado de cachoeiras, sendo a maior delas a Cachoeira Casca D’Anta, parte baixa, com uma queda de 180 metros formando um extenso véu. A Cachoeira Casca D’Anta também possui sua parte alta, com várias quedas e piscinas naturais que nos convidam a um bom banho, nesta que é a primeira queda d’água do Rio São Francisco, cuja nascente, com uma água de coloração absurdamente cristalina, localiza-se a poucos quilômetros da entrada do parque, entre pedras e buritizeiros do brejo do Marimbu. De tão frágil, ao avistá-la, temos a impressão de que, represando-a com as mãos, poderíamos deter o curso do rio. Destacamos também a Cachoeira do Rolinhos, a Cachoeira do Rolador e inúmeros riachos com corredeiras, muitas pedras, peixes e deslumbrante paisagem, além é claro do velho Chico, que logo após sua nascente já apresenta um considerável volume de água. 

           

         Merece destaque especial a vegetação nativa, já descrita pelo botânico francês August Saint-Hilaire, em suas viagens à nascente do São Francisco, nos primórdios da colonização brasileira. Orquídeas, Sempre-Vivas, Bromélias, Canelas-de-Ema, e ainda a desconcertante flor do Pequizeiro, árvore típica do cerrado. Após tomar diversos banhos em algumas cachoeiras da região, e já descansados e purificados do stress urbano que nos aprisiona e empalidece, deixamos a vista correr solta por extensos chapadões, vales recônditos, a vida em seu estado mais primitivo, que chega a assustar pela solidão, envolta em névoa e mistério. Ali o fotógrafo se delicia com a abundância de flagrantes naturais, o observador se exalta pela amplidão da natureza, as trilhas nos convidam para revelar o parque em sua intimidade, em locais que beiram os 1500 metros de altitude.

São Roque de Minas

            Outro passeio obrigatório em São Roquede Minas, município em que é fabricado o famoso Queijo Canastra, e onde se cultiva delicioso café ecológico, sem agrotóxicos, é o Capão Forro, um antigo quilombo, localizado a cinco quilômetros de São Roque e a três da Portaria 1 do Parna-Canastra. Ali encontramos, em meio a uma mata exuberante, as cachoeiras Capão Forro Um e Dois, a Cachoeira da Libélula, a Cachoeira do Cipó, a Cascata do Pilão e a Cachoeira dos Tucanos, além de trilhas especiais para a prática do trekking, e que exigem razoável preparo físico dos visitantes. Os rios são puros e suas águas frias e piscosas tornam o banho, em suas muitas piscinas naturais, uma revitalizante experiência. Quando de nossa visita, o Xinês, proprietário do local, cobrava R$ 2,00 por adulto como justa taxa de manutenção ambiental.

São Roque de Minas possui inúmeras pousadas, hotéis, restaurantes e fazendas que alugam casa para temporadas, a preços que variam para todos os gostos e bolsos. Como apoio ao visitante, existe o CAT (Centro de Apoio ao Turista), órgão pertencente ao Departamento Municipal de Proteção ao Meio Ambiente, cujo telefone é (37) 3433-1133. Ali você obterá informações sobre rios com corredeiras, campos rupestres, cerrados com capões de mata, fazendas antigas, trilhas, infra-estrutura e muito mais. Vale a pena fugir do lugar comum e encontrar um Brasil que, recém virado o milênio, permanece praticamente intocado. Terminamos este texto com as palavras do Frei Luis Flávio Cappi (lidas na Folha da Canastra nº 09) que em janeiro de 1994 percorreu toda a extensão do velho Chico, afirmando e alertando que “se não houver uma reversão no quadro de devastação do Rio São Francisco de maneira urgente, até o ano de 2020 ele será temporário e uma estrada de areia vai nos lembrar que ali existia um rio e que nós o deixamos morrer”. Boa viagem (coração aberto, mente quieta, olhos e ouvidos atentos), e lembre-se: da natureza nada se tira além de fotografias, nada se deixa além de pegadas, nada se mata além do tempo (lido em uma placa à entrada do parque).